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terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Tenho tanto sentimento que é frequente persuadir-me de que sou sentimental, mas reconheço, ao medir-me, que tudo isso é pensamento, que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, uma vida que é vivida e outra vida que é pensada, e a única vida que temos é essa que é dividida entre a verdadeira e a errada. Qual porém é a verdadeira e qual é a errada, ninguém nos saberá explicar; E vivemos de maneira que a vida que a gente tem é a que tem que pensar.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Fernando Pessoa

"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos insquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

«BALANÇA DE MINERVA – AFERIÇÃO»


Destina-se esta secção à crítica dos maus livros e especialmente à crítica daqueles maus livros que toda a gente considera bons. O livro, consagrado por qualidades que não tem, do homem consagrado por qualidades com que os outros o pintaram; o livro daquele que, tendo criado fama, se deitou a fingir que dormia; o livro do que entrou no palácio das musas pela janela ou colheu a maçã da sabedoria com o auxílio dum escadote – tudo isto se pesará na Balança de Minerva.
Claro que a razão do título Balança de Minerva é a circunstância de Minerva não ter balança nenhuma. Vagamente absurdo, leva este título em si a definição dum modo-de-ver que escolhe o onde opor-se a todos para ter razão inutilmente. A consciência do esforço inútil do trabalho perdido ainda é uma das grandes emoções estéticas que restam a quem se preocupa com as coisas que ainda restam.
A crítica, de resto, é apenas a forma suprema e artística da maledicência. É preferível que seja justa, mas não é absolutamente necessário que o seja. A injustiça, aliás, é a justiça dos fortes. No fundo, isto é tudo bondade. Dizer mal dum livro é o único modo de dizer bem dele. Se é mau, faz-lhe justiça; se é bom põe-o na evidência que os livros bons merecem. E, no fim de tudo, nada disto tem importância, porque os livros bons leva-os a História ao colo para casa. E quanto aos maus, criticar é apenas abrir-lhes a cova e rezar-lhes em cima da última descida o latim que falava Juvenal. Às vezes é com sete pás de elogios que esta justiça mortal melhor se sela.
A justificação última da crítica assim bem entendida é o satisfazer a função natural de desdenhar, função tão natural como a de comer e que é de boa higiene do espírito fazer cuidadosamente. Quem sente vontade de desdenhar não deve atar-se à cobardia de julgar isso feio, nem vender-se à infâmia de ir desdenhar o que os outros desenham, abdicando assim da sua individualidade, gregário.
As horas passam devagar e pesa em tédio a consciência delas. Buscar o conforto no desprezo é não só o nosso dever para com o desprezo, mas também o nosso dever para com nós próprios. Espetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que aprazam à nossa atenção futilmente concentrada, para que o nosso tédio se vá esvaindo – eis um passatempo deliciosamente de crítico, e ao qual juramos fidelidade.
Traduzindo isto para a metáfora que dá cor a esta secção, pretendemos dar a entender que o nosso uso da Balança de Minerva limitar-se-á, na maioria dos casos, a dar com ela – pesos e tudo – na cabeça do criticado. Isso, de resto, não deve preocupar a ninguém. Quem tiver de ser imortal pode sê-lo mesmo com a cabeça partida. O ser imortal é a única das preocupações anti-sociais que não faz mal a ninguém. E visto que o futuro raras vezes dá por ela, não é de mais que o presente algumas vezes nela dê.



Fernando Pessoa, Prosa Publicada em Vida, “Sobre Arte e Literatura”.

terça-feira, 29 de julho de 2008

No Céu da Noite


No céu da noite que começa
Nuvens de um vago negro brando

Numa ramagem pouco espessa

Vão no ocidente tresmalhando.


Aos sonhos que não sei me entrego

Sem nada procurar sentir

E estou em mim como em sossego,

P'ra sono falta-me dormir.


Deixei atrás nas horas ralas

Caídas uma outra ilusão,

Não volto atrás a procurá-las,
Já estão formigas onde estão.


Fernando Pessoa

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Este poema é dedicado ao João, pois tirei este poema de um livro que ele me ofereceu (Poesia da Noite). :)