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quarta-feira, 18 de março de 2009

O Mundo da Meia-Noite



Quero fugir, um dia
Para o mundo da meia-noite
Onde as trevas invadem tudo
e o ar é gelado,

Onde ninguém tem um nome,
Onde a vida não é um jogo,
Esconderei lá o meu coração partido
Que para sobreviver, morre.

Ninguém me poderá ver chorar, ali,
as lágrimas da minha solitária alma;
Encontrarei paz de espírito,
no frio e escuro mundo da meia noite.



Minako "mooki" Obata,
da banda sonora de "Black Lagoon"

Traduzido por HornedWolf


Imagem "On a midnight voyage",
Chris Berens

sexta-feira, 6 de março de 2009

Zeitgeist





Eu não tenho de vos dizer que as coisas estão más. Toda a gente sabe que as coisas estão más. O dólar compra tudo, os bancos fazem a festa. Os donos das lojas teem armas por debaixo dos balcões. Os miudos tornam-se cada vez mais selvagens. Não parece haver alguém que saiba o que fazer, e não ha como acabar isto. Sabemos que o ar está impróprio para respirar e a comida imprópria para comer. Mas sentamo-nos a ver as nossas TV's enquanto alguns jornais locais nos dizem que hoje houveram 15 homicidios e 63 crimes violentos como se fosse assim que devia ser! Nós sabemos que as coisas estão más, piores que más. Estão doidos. É como se tudo em todo o lado estivesse a endoidecer, e não saimos mais à rua. Sentamo-nos em casa e lentamente o mundo em que vivemos vai ficando mais pequeno. E tudo o que dizemos é «por favor, ao menos deixem-nos sozinhos nas nossas salas de estar. Deixem-me ficar com a minha tostadeira e a minha TV e eu não digo nada. Deixem-nos em paz!» Mas eu não vos vou deixar em paz. Eu quero que enlouqueçam! Não quero que protestem, nem que se revoltem. Não quero que escrevam ao vosso congressista porque não saberia dizer-vos o que escrever. Eu não sei o que fazer sobre a depressão, a inflação, os russos e o crime nas ruas. Tudo o que sei é que primeiro tens que enlouquecer! Tens que dizer «Sou um ser humano, raios partam! A minha vida tem valor!»



Zeitgeist

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A Poesia






"Até aos nossos dias, a poesia seguiu um caminho errado: elevando-se até ao céu ou rojando-se até à terra, menosprezou os princípios da sua essência e foi, não sem razão, constantemente ridicularizada pelas pessoas honestas. Não foi modesta, que é a qualidade mais bela que deve existir num ser imperfeito. Eu quero mostrar as minhas qualidades, mas não sou tão hipócrita que esconda os meus vícios. O riso, o mal, o orgulho, a loucura, hão de surgir, alternadamente, entre a sensibilidade e o amor pela justiça e servirão de exemplo à estupefacção humana: cada um se reconhecerá aí, não tal como deveria ser, mas tal como é. E talvez este simples ideal, concebido pela minha imaginação, venha a ultrapassar, no entanto, tudo o que a poesia encontrou até aqui de mais grandioso e de mais sagrado. Porque, se eu deixar transpirar os meus vícios, todos acreditarão melhor nas virtudes que faço resplandecer e cuja auréola porei tão alto que os maiores gênios do futuro hão de testemunhar, por mim, sincero reconhecimento. Assim, pois, a hipocrisia será expulsa, decididamente, da minha morada. Haverá nos meus cantos uma imponente prova de poder por desprezar assim as opiniões herdadas. Ele canta só para ele e não para os seus semelhantes. Ele não coloca a mediada da sua inspiração na balança humana. Nos seus caminhos sobrenaturais ele atacará o Homem e o Criador, com vantagem, como quando o espadarte crava a sua espada no ventre da baleia: maldito seja pelos seus filhos e pela minha mão descarnada aquele que persiste em não compreender os cangurus implacáveis do riso e os audaciosos piolhos da caricatura."

Isidore Ducasse

The Before-Life

Are uxe‘ ojer tzij
waral K‘iche‘ ub‘i‘.
Waral
xchiqatz‘ib‘aj wi
xchiqatikib‘a‘ wi ojer tzij,
utikarib‘al
uxe‘nab‘al puch rnojel xb‘an pa
tinamit K‘iche‘
ramaq‘ K‘iche‘ winaq.



"Eles juntaram-se na treva para pensar e reflectir. Foi assim que vieram a decidir qual o material correcto para a criação do homem."

Popul Vuh

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Dean Koontz




"Poucos dos clientes no bar e nas mesas, ou de pé junto às paredes, conversavam. A maioria estava carrancuda e silenciosa, não por a música atordoante dificultar as conversas, mas porque pertenciam à nova vaga de juventude alienada, alheios não só à sociedade em geral, mas uns aos outros. Viviam convencidos de que nada, excepto o gozo, interessava, e de que nada valia a pena falar, de que eram a ultima geração de um mundo a caminho da destruição, sem futuro. Conhecia outros bares neopunks (...) Muitos dos outros adaptavam-se ao gosto de pessoas que se divertiam todas da mesma forma: alguns dentistas e contabilistas adoravam pôr botas de fabrico manual, jeans desbotados, camisas de quadrados e grandes chapéus e ir para um bar rústico, pseudo-oeste, armados em cow-boys. Em Rip It, não se lia disfarce nos olhos de ninguém (...) Alguns procuravam qualquer coisa que transcendesse a violência e o sexo, sem ideia nitida de quê."
Dean Koontz

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

The God of Delusion






"O Papalagui é pobre porque vive obcecado pelas coisas, sem as quais já não consegue viver. Quando do dorso da tartaruga faz uma ferramenta alisa os cabelos (...) o Papalagui ainda faz uma pele para a ferramenta e para esta pele faz um pequeno baú e para o pequeno baú faz outro grande; tudo ele coloca em peles e baús. Tem baús para as tangas, para as roupas de cima e de baixo, para os panos com que se enxuga, com que limpa a boca, e outros panos mais; baús para as peles que põe nas mãos e para as peles que põe nos pés, para o metal redondo e para o papel pesado, para as provisões de boca e para o livro sagrado, para tudo mesmo. Ele faz muitas coisas, quando apenas uma é suficiente (...) Destruindo onde quer que vá, as coisas do Grande Espírito (a natureza), o Papalagui com sua própria força pretende dar vida, novamente, àquilo que matou".


"É difícil para Papalagui (Homem Branco) não pensar. É difícil viver com todas as partes do corpo ao mesmo tempo. É comum ele viver só com a cabeça enquanto todos sentidos dormem profundamente.
...Por exemplo, quando o belo sol brilha, o Papalagui (Homem Branco) pensa imediatamente: "Como o sol brilha agora, que beleza!" E continua pensando: "Como o sol está brilhando, como está bonito!" Isto está errado, inteiramente errado, absurdo, porque o melhor é não pensar em nada quando o sol brilha. O Samoano inteligente estira os membros à luz quente do sol e não pensa em nada. Ele recebe o sol tanto com a cabeça quanto com as mãos, os pés, as coxas, a barriga, todas as partes do corpo. Ele deixa que a pele e os membros pensem por si; e certamente eles também pensam de uma forma diferente da cabeça.
...Pensa em coisas alegres, é certo, mas sem sorrir; pensa certamente em coisas tristes, mas sem chorar.
...O Papalagui (Homem Branco) quase sempre vive em combate perpétuo entre sentidos e seu espírito; ele é um homem dividido em dois pedaços."



Comentários de Tuiavi recolhidos por Erich Scheurmann

* Dedicado a Fabulástico

The Focus of Life



O que são mentiras senão eventos fora de tempo?
O que é o tempo senão a variedade de uma única coisa?
O que é toda a tolice, senão vontade?
O que são as crenças senão as possibilidades do eu?
O que é todo o futuro senão ressurreição?
O que é toda a criação senão tu mesmo?
Porque é toda a existência?
Acorda! De pé! De pé, descobre pela tua saude-o-auto-amor.



Imagem e texto de
Austin Osman Spare

Tradução de
André Consciência

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Tempo




"Certainly I prefer the eastern equation Breath = Time to the western one of Time = Money."


Orryelle em "A Brief HIRstory of TimEmit"

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

As Núpcias


"Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quanto a mim, não procuro estar sozinho neste lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia nos seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar."
Albert Camus - As Núpcias

domingo, 24 de agosto de 2008


Rotina era o tema, ele acordaria e… lavar-se-ia e deslizaria para o interior do uniforme
Algo que ele não se imaginara a ser…
À medida que o tráfego misturado passava, encontrou-se de olhar baixo, voltado para as suas próprias mãos…
Não se recordando da mudança, não se lembrando do plano, teria sido…?
Ele estava razoável, mas derivando sobre estar à deriva
Teria sido a idade? A consequência? Ou teria sido movido por truque de prestidigitação?
As segundas-feiras foram feitas para cair, perdido numa rua que conhecia de coração
Como um livro que havia lido durante o sono, infinitamente…
Por vezes escondia-se no seu rádio, a observar os outros entrar nas suas casas
Enquanto ele derivava…
Numa linha, de si mesmo, fora da linha, à berma,
À volta da volta, enquanto o pó se tornou areia, como se movido por truque de prestidigitação
Quando ele alcançou o limite do seu mundo atado
Ressurgiu para a norma
Organizou as suas poucas coisas, casaco e chaves…
Qualquer nova realização teria de esperar até que ele tivesse tempo… mais tempo…
Tempo para sonhar, para si mesmo
Ele acena adeus, a si próprio
Eu vejo-te no outro lado…
Outro homem… Movido por truque de prestidigitação …
Sleight of Hand,
Pearl Jam
Traduzido por mim

terça-feira, 22 de julho de 2008


Hino a Lúcifer

Sem atentar, nem ao bem nem ao enfermo, que finalidade tem o acto?
Sem o seu clímax, morte, que salvação tem
A Vida? uma maquina implacável, exacta
Enquanto passeia por um caminho vazio e insignificante
Para afundar em brutos apetites, o seu conteúdo inteiro
Quão aborrecido estava ele de se compreender
A si mesmo! Mais, este nosso nobre elemento
Do fogo na natureza, amor no espírito, desconhecida
A vida é sem primavera, sem eixo, e sem fim.

O seu corpo um rubi radiante de sangue
Com nobre paixão, Lúcifer de alma ensolarada
Deslizou pela colossal manhã, ágil e oblíquo
No imbecil perímetro do Éden.
Ele abençoou o não-ser com todas a maldições
E espicaçou com mágoa a alma apagada de sentido,
Soprou a vida para o estéril universo,
Com Amor e Conhecimento expulsou a inocência
A Chave da Alegria é a desobediência.



Texto original de Aleister Crowley, traduzido da lingua inglesa por mim.
Acredito que esta é a primeira versão em português do afamado poema "Hymn to Lucifer"

quinta-feira, 17 de julho de 2008

O Nascimento da Tragédia


"Também na Idade Média alemã se revolviam, sob o mesmo poder Dionisíaco, multidões sempre crescentes, cantando e dançando, de um lugar para o outro: nesses dançarinos de São João e São Vito, reconhecemos os coros báquicos dos Gregos, com o seu precedente histórico na Ásia Menor até à Babilónia e aos orgiásticos saqueus. Há pessoas que, por falta de experiência ou por estupidez, se desviam de tais fenómenos como de "doenças populares", com uma atitude de escárnio ou de lamentação e no sentimento da própria saúde: os pobres não imaginam decerto quão cadavérica e fantasmagórica se apresenta justamente essa sua "saúde", quando a vida fulgurante de entusiastas dionisíacos passa torrencialmente ao lado."

Nietzsche, O Nascimento da Tragédia

sábado, 5 de julho de 2008


"Ele tinha até de sentir mais: a sua existência inteira, com toda a sua beleza e moderação, assentava num subsolo oculto de sofrimento e conhecimento, que por sua vez lhe foi revelado através daquele elemento dionisíaco. E vede! Apolo não podia viver sem Dioniso, aquele elemento «titânico» e o elemento «bárbaro» constituía afinal a mesma necessidade que era própria ao elemento apolineo! Pensemos então como neste mundo, construído sobre a aparência e a moderação e com represas artificiais, penetrava então o som extasico da festa dionisíaca, em melodias magicas de crescente sedução, assim como nestas suava todo o excesso da natureza em prazer, sofrimento e conhecimento, ate ao grito penetrante: pensemos o que podia significar, face a esse demoníaco canto popular, o artista de Apolo com os seus salmos, com o som fantasmagórico da harpa! As musas das artes da aparência empalideciam diante de uma arte que falava a verdade na sua embriaguez, a sabedoria de Sileno exclamava «Ó dor! Ó dor!» contra os serenos seres Olímpicos. O individuo, com todos os seus limites e medidas, ficava aqui submerso no esquecimento de si próprio, inerente aos estádios dionisíacos, e esquecia as normas apolineas. O excesso desvendava-se como sendo verdade, a contradição, o deleite nascido das dores falava de si a partir do coração da natureza.”

Friedrich Nietzsche
O Nascimento da Tragédia e Acerca da Verdade e da Mentira
Página 41